Hermano Freitas
Direto de São Paulo
O ritmo acelerado das mudanças climáticas e a crescente poluição atmosférica devem ser as maiores ameaças à saúde do homem e a principal causa de mortes nos próximos anos. Esta é a conclusão do encontro mundial de médicos especialistas em Copenhagen, na Dinamarca, segundo o médico Paulo Saldiva.
Saldiva, que coordena o laboratório de poluição da Universidade de São Paulo (USP), foi o único brasileiro a participar. Ele afirma que a preocupação com as emissões de carbono deve ser formalizada em um documento, a ser elaborado no próximo mês, em novo encontro na Índia. A ideia é elaborar uma recomendação a ser entregue na próxima conferência sobre clima, que será realizada também em Copenhagen.
Após retornar do encontro da Associação Médica Mundial e da Organização Mundial da Saúde, realizado nesta semana, Saldiva criticou a timidez da resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que fixa em 2013 a data para que carros emitam a quantidade de carbono que hoje é produzida pelos carros americanos e europeus.
Confira os principais trechos da entrevista:
Como o senhor vê a última resolução do Conama?
Não podemos negar que há um avanço, mas é um avanço dentro de um retrocesso histórico. Do ponto de vista da saúde da população, continuaremos atrasados porque teremos em 2013 o que os EUA e os países da Europa têm hoje. Seguiremos defasados, portanto. Podemos dizer que foi um passo para a frente depois de 10 para trás.
Onde a medida poderia ter avançado mais?
Poderia ter sido aprofundada a questão da limpeza dos combustíveis. O diesel brasileiro ainda é péssimo, muito poluente. Enquanto seguirmos dando incentivos à indústria automobilística uma resolução como a do Conama parecem mais uma pirotecnia eleitoral do que um compromisso sério com a saúde da população.
A resolução é divulgada em meio ao debate sobre a exploração do Pré-Sal. Como fica a exploração do petróleo neste contexto?
O Pré-Sal está sendo vendido como uma panacéia para todos os problemas econômicos do País. Mas quem garante que daqui a 10 anos não será visto como um mico? O encontro de que participei concluiu que as mudanças climáticas e a poluição atmosférica será o maior problema de saúde e a principal causa de mortes. Na hora em que faltar comida e água ninguém vai lembrar do petróleo do Brasil.
Como reduzir, então, o consumo do combustível fóssil?
Precisamos de políticas sérias que levem em conta a saúde das pessoas. Sei que o representante de algum setor pode dizer que sou ingênuo, mas haverá alguns que perderão. Precisamos reduzir já o uso do solo para o automóvel, investir em transporte público, caminhar, usar bicicletas, reduzir as emissões de carbono. Não fiquei impressionado com (a resolução do) Conama, não me deu esperanças como médico nem como cidadão brasileiro.
